Revista Concreto & Construções - edição 89 - page 83

CONCRETO & Construções | Ed. 89 | Jan – Mar • 2018 | 83
Como foi claramente dito no
evento citado, a Ciência busca en-
tender o mundo. Já a Engenharia
usa a Ciência para construir ou mu-
dar o mundo. Mas a esse legado
científico, soma milênios de expe-
riência de fazer. Dito de outra for-
ma, engenharia é combinar ciência
com “fazeção”. Também é preci-
so entender, Engenharia não é um
corpo estático de conhecimentos,
mas um processo de usar ciência
e experiência para fazer o que quer
que seja.
A Engenharia combina a beleza
da ciência com a solução de pro-
blemas reais. Um dos seus grandes
atrativos é estar sempre com um
pé em cada lado desta dualidade
teoria/“fazeção”.
No modelo Olin, há sempre a
preocupação de começar com um
problema, ou melhor, um mistério.
Por que o viaduto caiu? Por que a
cozinha explodiu? Por que o aci-
dente com o avião? Tenta-se dar ao
curso uma índole de decifrar misté-
rios e enfrentar desafios.
Fala-se sempre em resolver pro-
blemas como o objetivo de um bom
curso de Engenharia. Mas em Olin,
isso é pouco, considera-se essen-
cial descobrir onde está o problema
e não apenas encontrar soluções
para os problemas propostos.
Ao longo do curso, espera-se
que os alunos criem empresas de
verdade. Com efeito, está disponí-
vel a cada aluno um crédito de 50
mil dólares para iniciar a empresa
concebida.
Outra característica interessante
do curso é a presença próxima das
empresas, não apenas colaborando,
mas discutindo o que deve e o que
não deve ser ensinado.
Olin segue a tradição america-
na de oferecer um ciclo de educa-
ção geral dentro dos quatro anos
de graduação (em contraste com a
chamada Escola Napoleônica fran-
cesa, adotada no Brasil, na qual o
ensino superior é puramente profis-
sional). Não obstante, vai um pouco
mais longe, insistindo nas Humani-
dades, nas leituras e na redação. Ou
seja, o objetivo é formar um aluno
que enxerga além das equações e
das oficinas.
Há também uma preocupação
de instilar valores, tais como o cul-
tivo da cultura da inovação e da
percepção da beleza nas obras.
Além disso, o aluno deve aprender
a trabalhar em equipe. Tem também
que entender que o engenheiro im-
provisa e que tudo pode ser melho-
rado. Como já se disse, o bom en-
genheiro é quem faz com um dólar
o que qualquer idiota gasta dois. E
para tais empreendimentos, convive
sempre com o risco e a incerteza.
Seja em Olin, seja nas grandes
escolas de engenharia que se rein-
ventam nos dias de hoje, há uma
visão clara de que a missão do en-
genheiro é criar um mundo novo, di-
ferente e melhor. O engenheiro deve
sempre estar se perguntando: o que
está mal, como posso melhorar,
como posso consertar ou revolucio-
nar alguma coisa? O desafio da cria-
ção e da invenção é permanente.
Mas ao mesmo tempo, os pés
precisam estar solidamente no
chão. Só há inovação quando al-
guém compra. Engenharia é a fusão
da ciência com o negócio.
Tudo tem custo e tudo pode ser
feito de diferentes maneiras. O de-
safio é combinar uma boa solução
técnica com a sua viabilidade eco-
nômica. É da natureza da profissão
que sem o lado econômico não é
Engenharia, mas sim alguma forma
de diletantismo. Ou o cliente paga
a conta ou não se sai da miragem.
E também se deve entender que
sempre paira o risco de que os con-
correntes consigam fazer melhor ou
mais barato. A competição é parte
do cotidiano de um engenheiro.
Engenharia é integrar a inovação
com o negócio. Tudo começa com
um bom diagnóstico: onde estamos,
o que não funciona bem, o que po-
deria mudar, o que pode ser melho-
rado? Mas note-se que, nesta eta-
pa, é mais ciência do que técnica. É
na hora de encontrar e escolher so-
luções que se entra no seu âmago.
Voltamos a insistir, a Engenharia
não é movida pela curiosidade, mas
pelo negócio. Fazer é só o início.
Alguém precisa comprar. Portanto,
vender pode até ser mais crítico ou
difícil do que criar um produto novo.
Há muitos exemplos mostrando
que uma tecnologia mais ou menos,
porém bem vendida, faz mais vanta-
gem do que outra perfeita, mas que
não se impôs no mercado. O exem-
plo clássico é o
VHS
que desbancou
o
Betamax
, apesar de ser uma solu-
ção tecnicamente inferior.
Resumindo, os grandes centros
de ensino de engenharia borbulham
com propostas de mudança. Já
passaram da fase de serem apenas
cogitações de professores idealistas
ou irrequietos. Há muitos experi-
mentos bem sucedidos de trans-
formação dos cursos. Mesmo no
Brasil, alguns dos melhores cursos
estão planejando mudanças muito
significativas, seja no como, seja no
que ensinar.
Assim sendo, é hora de embarcar.
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